Com a eliminação precoce na Copa Sul-Americana e derrota na semifinal do Campeonato Paulista, o desempenho do Corinthians é contestado de forma geral – por imprensa e torcida – em 2021. Diante dessas críticas, costuma ser inserido o seguinte argumento: “o Corinthians não tem elenco”. Será mesmo?

Um dos setores do time mais criticados, e de certa forma ainda indefinido na atual temporada, é o meio-campo. Um setor com diversas peças, como por exemplo, Xavier, Gabriel, Ramiro, Roni, Cantillo, fora os emprestados (Matheus Jesus, Éderson, etc), carece de um jogador capaz de demonstrar versatilidade. Passe, agilidade e finalização. É por isso que venho aqui falar de Vitinho.

COMO JOGAVA VITINHO NA BASE?

Desde 2006 no Corinthians, Vitinho era muito falado entre os que acompanham a base do clube, já muito jovem. Antes como um jogador de lado de campo, o camisa 43 do profissional se transformou durante os últimos anos de categorias de base, aprimorando-se no sub-20 como um excelente meio-campista.

Em um 3-5-2/5-3-2 ou mais especificamente um ofensivo 3-1-4-2 no sub-20 de Dyego Coelho e depois Carlos Leiria, Vitinho atuou como interior pela esquerda e foi fundamental para que as ideias fossem bem executadas, além de potencializar outros companheiros de equipe.

Time-base do sub-20 orquestrado pelo camisa 10 Vitinho

Um jogador associativo, Vitinho aproveitou o lado esquerdo de muita qualidade com Lucas Pires ou Reginado, aproximações de Adson e a qualidade de Du Queiroz para assim ser uma válvula de ligação entre o volante e os jogadores de frente.

Reprodução

Acima é interessante reparar como o Vitinho se posiciona em fase ofensiva, nesse caso sem Matheus Araújo na equipe e Lucas Pires na vaga de Araújo. O movimento mais comum de Vitinho nesse caso é dar opção no buraco 1, para receber em uma zona central e acionar Cauê. ou um jogador de beirada.

Quando opta pela região 3, cadencia mais a posse e se conecta com Reginaldo e Pires. Já a opção 2, de ataque ao espaço entre os zagueiros é uma ação menos utilizada por Vitinho. Gosta de ser o mais cerebral.

Ademais, Vitinho se caracteriza por sua capacidade de movimentação entrelinhas, domínio orientado, velocidade para girar o corpo e inversões. E o ponto principal desse texto está nessas caraterísticas citadas, principalmente na última.

MOMENTO DO PROFISSIONAL

Diante de uma saída conturbada de Vagner Mancini e início também contestado de Sylvinho, o meio-campo foi completamente transformado. Antes com uma dupla de volantes mais agressiva (Gabriel e Ramiro), agora com Sylvinho a preferência é por três volantes, Cantillo de primeiro homem e Gabriel (esq.) e Roni (dir.) cumprindo a função de interiores.

Nessa situação, o Corinthians se porta defensivamente em um 4-5-1 ou por vezes em um 4-4-2, com os extremos (Mosquito e Vital) recuando à segunda linha de 4, enquanto Luan e Roni saltam para pressionar os zagueiros. O Roni titular do atual Corinthians deve-se muito a esse fator, o entendimento de Sylvinho na utilidade defensiva e no “pressing” do jovem volante.

Dito isso, quais são os benefícios e malefícios ao usar esse esquema, com Gabriel e Roni como interiores? A começar pelas boas evoluções, destaco justamente a segurança defensiva e potencialização do meio-campista mais técnico do elenco, Victor Cantillo. O colombiano agora está mais protegido, pela compactação/diminuição do espaço entrelinhas, e por ter ao lado dois jogadores que buscam correr por distâncias mais longas (perseguições), algo que Cantillo tem dificuldade.

No entanto, é importante discorrer agora sobre alguns pontos negativos dessa escolha. Primeiro que, essa pressão aplicada por Roni e Luan na frente, principalmente pensando na peça do Roni (que descola da linha de 5 para subir), costuma deixar espaços em suas costas. Veja:

Mosquito abandona a marcação pelo lado e tem que fechar por dentro, espaço dado pelo salto do Roni/ Reprodução

Além disso, é importante constar que domínio orientado e qualidade no passe são atributos importantes a um meio-campista, e os dois interiores titulares hoje (Roni e Gabriel) pouco provêm dessas características. Então por que insistir? Não vale a pena colocar um atleta mais técnico no meio-campo?

A TITULARIDADE DE VITINHO

Após analisar as características que Vitinho apresentou na base e explicar o atual momento do meio-campo de Sylvinho, vamos entender como o Vitinho já foi aproveitado no profissional e qual a melhor forma de utilizá-lo no atual contexto.

Vitinho tem oito jogos na temporada, com 237 minutos somados, ou seja, 29 minutos de média nas partidas que entra. Apenas duas nos onze iniciais e uma delas foi substituído no intervalo. Então, antes de tudo, é bom deixar claro que Vitinho ainda não teve uma sequência.

Quando teve, observaremos agora onde atuou:

Mapa de calor de Vitinho no Paulistão 2021/ SofaScore

Escalado originalmente de forma central na linha de 3 do 4-2-3-1, esquema de Vagner Mancini, Vitinho se movimentava para aproximar de Rodrigo Varanda (extremo esquerdo). No entanto, foi um início complicado por alguns motivos.

Vitinho é um atleta que gosta de recuar mais na base da jogada, ou pelo menos receber com espaço (não encaixotado) e assim abrir o campo para os companheiros em um passe ou inversão, etc. Se o treinador o coloca para ser um jogador de movimentação entrelinhas apenas, sozinho atrás do centroavante, pouco potencializa o garoto.

Pelas características dos volantes titulares na época, se ele recuasse na base da jogada para auxiliar na construção, Gabriel ou Cantillo se encarregariam de ocupar o espaço deixado por Vitinho, algo não muito adequado.

Repare agora especificamente nessa inversão do Vitinho, diante do São Bento. Ele ocupa a faixa do lateral-esquerdo, naquele dia e ainda hoje Fábio Santos, que no caso do vídeo abaixo vai ao espaço deixado pelo camisa 43. Fábio já demonstrou qualidade para atuar por dentro em alguns contextos.

Entretanto, tenho que ser justo também e não colocar toda a culpa em Mancini. Nas primeiras atuações, Vitinho também errou alguns gestos técnicos, demonstrou falta de concentração, algo natural para um jovem que estava nos primeiros minutos de profissional.

Só para deixar claro: Vitinho ganhando ritmo no profissional, por vezes também pode ser útil mesmo mais encaixotado. É ágil, tem o passe curto interessante e toma as decisões de forma rápida. O detalhe é que, com tempo para pensar, trabalha melhor. Não significa ser ruim com menos tempo de raciocínio.

Agora com o novo esquema e Sylvinho no comando, a função de interior parece não haver unanimidade. Dito isso, Vitinho pode ganhar uma vaga e atuar em sua melhor função na base. Pode dividir uma responsabilidade de construção e qualidade em passes curtos e longos com Cantillo, a equipe pode se tornar menos pragmática, mais criativa.

E perde muito defensivamente? Não é um exímio marcador, mas não falta vontade ao Vitinho, faz abordagem nos zagueiros e volantes adversários quando necessário. Quando perde a posse, costuma “ir até o final” para recuperá-la. É ligado! De qualquer maneira, penso da seguinte forma: é mais fácil o Vitinho aprender a marcar e o time ser mais criativo, do que a equipe ter excesso de jogadores agressivos, que dificilmente “aprenderão” a ter uma técnica refinada.

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