Embora ainda sofra críticas, a volta de Fábio Santos para a lateral esquerda do Corinthians resolveu boa parte dos problemas defensivos. Antes de sua chegada, a média de gols sofridos pela equipe era de 1,45 por jogo, mas após o veterano assumir a titularidade, caiu para 0,33. Com a boa fase, era inevitável que o jovem Lucas Piton, promovido para o elenco titular no final de 2019, perdesse espaço. Devido à sua pouca idade, apenas 20 anos, é relativamente comum ir para o banco de reservas. No entanto, seu futuro vai depender de uma escolha.

O COMEÇO NO CORINTHIANS

Piton estreou pelo Corinthians na derrota para o Fluminense por 2 x 1, em dezembro de 2019. Na partida em questão, atuou por 45 minutos e cruzou a bola para Gustavo, o Gustagol, anotar o único gol do timão no jogo. Ainda que muito jovem, seu começo foi um tanto quanto promissor, mas ficou de molho com a chegada de Tiago Nunes no comando do clube. Só ganhou espaço mesmo com a venda de Carlos Augusto, outra cria da base, para o Monza da Itália, em agosto deste ano. Dividiu espaço com Sidcley, mas devido à má fase de seu concorrente, virou titular absoluto na lateral esquerda.

Desde que iniciou, lá em 2019, foram 26 jogos oficiais e quatro assistências. Fato é que Piton nunca foi um grande marcador. Iniciou no Corinthians através do futsal sub-16 e lá desenvolveu suas melhores características até hoje: controle de bola e passe. Foi no sub-17 de campo que começou a jogar avançado como ponta esquerda, ganhando espaço pelos bons cruzamentos e assumindo a titularidade. Entretanto, quando subiu para o sub-20, o técnico Dyego Coelho pediu para que voltasse à sua posição de origem: a lateral esquerda.

Lucas Piton durante atuação contra o Fortaleza (Foto: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians)

Foi através dela que ganhou oportunidade no time principal, mas suas qualidades defensivas deixaram a desejar. Considerando a inevitável aposentadoria de Fábio Santos (que já tem 35 anos), Piton é o maior candidato a voltar como titular no futuro. Mas para isso, é necessário aprimorar seus fundamentos de defesa, principalmente posicionamento em cruzamentos. Sua marcação individual também peca, apesar de ter melhorado em muitos aspectos.

FUTURO LATERAL DA EQUIPE?

Piton possui 0.9 cruzamentos precisos por jogo contra 0.2 de Fábio Santos, possui também 1.5 interceptações por jogo contra 0.6 de seu concorrente. Além disso, 4.4 disputas de bola vencidas por jogo contra 2.3 do veterano. Os números mostram que o jovem é promissor na sua posição e uma das grandes promessas vindas da base, contudo, a experiência fala mais alto em uma fase mais difícil do Corinthians. É fato que o atleta fez partidas ruins pelo clube e Fábio Santos, atualmente, é dono incontestável da posição.

O futuro promissor pode render bons frutos ao Corinthians e a confiança no resultado é vista desde agora. Segundo o site TransferMarkt, seu valor de mercado gira em torno dos € 6 milhões, mas sua multa rescisória já foi colocada em R$220 milhões. Piton também já participou da seleção sub-20 do Brasil e seu nome corre por fora em possíveis listas de convocação para a equipe olímpica. Embora seja difícil conquistar uma vaga na posição tanto pelo clube quanto pela Seleção, existe uma opção de se basear no passado para ressignificar sua carreira.

Piton e outros atletas do Corinthians sub 20 em um treino com a seleção brasileira. Foto: Reprodução/ Instagram

UM OLHAR PARA O PASSADO

Se caso Piton perceba a dificuldade de ser um lateral esquerdo durante o futebol atual e prefira mudar de posição, uma história do passado corintiano pode motivar o atleta para uma transição. O ano é 2007, inesquecível para todo o bando de loucos, mas com algumas particularidades. A equipe do Corinthians era a franca favorita da Copa São Paulo de Futebol Júnior, contava com grandes craques na base, como Lulinha e Dentinho. Juntos, levaram o clube ao melhor ataque da competição, com 16 gols.

Surpreendentemente, uma eliminação precoce para o Cruzeiro (que seria o campeão da edição) colocaria fim a campanha. No entanto, alguns jogadores do plantel chamaram atenção do time principal, como os dois já citados e o lateral esquerdo do time, Everton Ribeiro. Sim, o atual camisa 7 do Flamengo começou sua carreira como lateral esquerdo do Corinthians, mas foi pouco utilizado no profissional pelo técnico Paulo César Carpeggiani. Chegou a atuar em algumas partidas, estreando como profissional em setembro daquele ano, na derrota para o Sport por 2 x 1.

Everton Ribeiro em treino pelo Corinthians. Foto: Reprodução/ Folha Imagem

Everton Ribeiro sempre foi elogiado pelo seu bom passe, controle de bola e participação ofensiva com cruzamentos, porém pecava no quesito defensivo. O lateral esquerdo da equipe por muito tempo havia sido Gustavo Nery, mas foi emprestado ao Zaragoza da Espanha. Sendo assim, Everton ganhou chances, contudo, o então recente técnico do Timão Nelsinho Baptista optou pela formação com três zagueiros. Fábio Ferreira, Zelão e Betão formaram o trio. Devido a falta de espaço, o recém-promovido lateral foi emprestado ao São Caetano e decidiu iniciar a transição para o meio de campo.

A ESCOLHA QUE DEU CERTO

Everton Ribeiro optou em não desenvolver os fundamentos defensivos, mas sim aprimorar suas qualidades. No São Caetano, ficou até 2011 e foi um dos destaques da equipe como meio-campo. Tite decidiu por não utilizá-lo no Corinthians naquele ano e o atleta foi vendido ao Coritiba por apenas R$1,5 milhões. Em 2013, o treinador Marcelo Oliveira pediu a contratação do agora meia para o Cruzeiro, pois havia trabalhado com o atleta anteriormente no clube paranaense. Assim, Everton se tornou o grande craque do brasileirão daquele ano e até hoje brilha com seu talento.

Lucas Piton e Everton Ribeiro compartilham de situações parecidas em suas vidas, enfrentando dilemas para ganhar oportunidades na carreira. Ambos possuem quase a mesma altura (1,75m de Piton e 1,74m de Everton), características parecidas (deficiência defensiva, mas com boas qualidades de criação de jogadas) e o mais importante: vontade de crescer no futebol. Como já possui uma bagagem do futsal, a transição para o meio de campo pode ser ainda mais tranquila para Piton.

Entretanto, o Corinthians precisaria mudar sua formação e se adaptar, o que já está acontecendo. O técnico Vagner Mancini experimentou o jovem como meia esquerda na vitória contra o Coritiba por 1 x 0, além de ponta esquerda no empate dramático contra o Fortaleza por 0 x 0. A transição é difícil e pode levar tempo, certamente é algo para o ano de 2021, mas a comissão técnica do clube já percebeu a possibilidade.

TITULAR COMO LATERAL ESQUERDO

Sem dúvida, ter começado como titular esse ano durante uma das épocas mais conturbadas do Corinthians afetou o desempenho do jovem na lateral. Se está sendo difícil para veteranos como Cássio, Gil, Fagner e Jô aguentarem a bronca, pior ainda para um garoto recém promovido. Fato é que nesse momento, com a volta de Fábio Santos, não existe mais a necessidade de titularidade imediata de Piton. O sistema defensivo se ajustou com o veterano e o mesmo pode ser um grande professor para essa “nova era”.

Dessa maneira, a inevitável aposentadoria de Fábio Santos seria o momento ideal para Piton reassumir a titularidade. Aprimorar os fundamentos defensivos e tornar-se um futuro ídolo vindo da base é o que mais sonha o menino, mas o sonho pode se tornar realidade. Seja como for, o destino caminha para uma “troca de bastões” entre uma geração que venceu tudo pelo clube para uma nova era de talentos criados em casa. O tradicional 4-2-3-1 das épocas de Tite se torna mais uma forte opção para um Lucas Piton maduro e aprimorado.

O CAMINHO COMO ALA OU PONTA ESQUERDA

Se por um lado Piton necessita desenvolver fundamentos defensivos para ser um grande lateral, por outro, pode aprimorar o que já possui de melhor. Com o futebol moderno impondo um jogo cada vez mais dinâmico e veloz, a volta de alas e formações com três zagueiros estão cada vez mais constantes. Temos casos como o colombiano Juan Cuadrado, da Juventus, que cumpre muito bem essa função de “winger“, dominando o lado do campo desde a defesa até o ataque. Não podemos esquecer também do veterano espanhol Jesús Navas que, no auge dos seus 35 anos, se tornou um grande ala tanto ofensivamente quanto defensivamente.

Jogar mais próximo do ataque fará com que Piton liberte esse peso de ser um grande marcador. Definitivamente, um Corinthians aos moldes europeus atuando com três zagueiros e dois alas, pode ser a solução para um problema que se mantém com o 3º técnico no ano: falta de criações de gol. Além de liberar o garoto para chegar ao ataque, libera também Fagner para atuar próximo dos meias e jogar onde mais gosta. O inovador 3-4-2-1 de Julian Nagelsmann no RB Leipzig ou o mortal 3-5-2 de Gian Piero Gasperini na Atalanta são opções interessantes com comprovação de funcionalidade.

A TRANSIÇÃO PARA O MEIO DE CAMPO

Com toda a certeza, a escolha mais difícil de todas as opções. Em primeiro lugar, seguir o caminho trilhado por Everton Ribeiro ao pé da letra pode significar um tempo de Piton longe do Corinthians para ganhar experiência. A transição brusca leva tempo e paciência, duas coisas que um time em crise não possui. A posição de meia esquerda é uma incógnita no Timão e talvez isso possa favorecer essa transição. Outrora ocupada por Léo Natel, Everaldo, Otero, Luan e Mateus Vital, o técnico Vagner Mancini mostra não ter uma escolha sólida para essa faixa do campo. O próprio Piton já foi titular na posição e isso pode facilitar oportunidades no momento.

Lucas Piton durante partida contra o Grêmio (Foto: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians)

Trazendo o jovem para mais próximo da parte criativa, desafogaria Cazares de precisar buscar a bola atrás do meio de campo. Um 4-5-1 com meio bem preenchido ajudaria o time a reter a posse de bola e ter tempo para criação de jogadas. Assim também, o apoio pelos lados do campo faria da formação um coringa: enquanto ataca é 4-3-3, enquanto defende é 4-5-1. Piton chegaria até o atacante como um ponta, voltaria ao meio de campo para dar suporte aos dois meias de criação e, com o avanço do ataque adversário, daria suporte também ao lateral.

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