A partida entre Bayern de Munique e Barcelona, o 8 a 2, encerra definitivamente um ciclo em uma equipe que foi dominante dentro do futebol europeu. Mas o que isso nos ensina? Bom, nenhuma filosofia dura para sempre. Enquanto a Europa nadava para um lado totalmente diferente, o Barcelona tentava ir contra a maré, seguindo uma ideologia de mais de uma década e que parou no tempo, sem seguir a modernidade que pedia o futebol.

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Mas o que isso tem relação com o Corinthians? Estamos em 2020, chega o Tiago Nunes, que tenta propor uma ruptura de ideias, o começo do fim de uma ideologia que ficou consolidada e se tornou vencedora por muitos e muitos anos, mas que está ficando para trás e totalmente presa nas revoluções que o futebol sofre constantemente.

O Corinthians, a partir de 2008, criou uma tendência, uma consolidação de um modelo de jogo no qual fortalecia o jogo reativo, o poder defensivo e uma estrutura de jogo muito forte e vencedora, que apesar das mudanças de peças no comando técnico, seguia a mesma linha. Nesse meio tempo tivemos Tite, Mano Menezes e Fábio Carille como linha de frente de uma filosofia vencedora na década.

Enquanto isso, na Espanha, tínhamos um Barcelona que buscava seguir a mesma filosofia criada por Pep Guardiola, o famoso “tikitaka”, que já havia mostrado problemas dentro do futebol espanhol com a seleção em 2014 na Copa do Mundo. O time catalão tentou muitos nomes nesse período, sempre buscando defender a ideologia. Por lá passaram Tata Martino, Tito Vilanova, Ernesto Valverde e Luis Enrique, o mais vencedor deles mas que já começava a propor um jogo mais vertical, tendo em vista o trio MSN em seu auge.

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Luis Enrique acabou sendo demitido com o papo de que estava destruindo a identidade do Barcelona, mas o que seria essa identidade? O “barcelonismo” ortodoxo queria manter a ideia de jogo acima de todas as coisas, mesmo que isso significasse ir contra toda a modernidade do futebol. Isso fica nítido quando os dirigentes do Barcelona afirmam que, para dirigir o clube, seria necessário ter jogado por lá, para entender e saber como é definida a ideia. Enquanto Pep Guardiola, o revolucionário e maior nome dessa ideia se mostrava em evolução nos centros europeus como Alemanha e Inglaterra, o Barcelona continuava lá, preso numa ideia que se mostrava cada vez mais ultrapassada e criando o que eu chamo de “a revolução que parou”.

Aqui no Brasil, tínhamos clubes buscando cada vez mais jogar para frente: Flamengo investindo forte em Jorge Jesus, Bahia buscando elevar seu jogo com Roger Machado, Santos com Sampaoli, Grêmio bem identificado com Renato Gaúcho e cada vez mais treinadores como Mano Menezes, Celso Roth e outros nomes perdendo espaço no mercado brasileiro. Mas o Corinthians seguia lá, indo contra a maré da maioria dos clubes nacionais e apostando na sua identidade vencedora, mesmo que ela custasse ser o “time do contra”. A ideia corinthiana ficou ainda mais ortodoxa quando o Corinthians começou a ser dominado por qualquer time sul-americano, achando que apenas a sua ideologia e a sua filosofia de décadas seria capaz de superar tudo e todos.

Após o jogo contra o Racing , da Argentina, Andrés Sanchez veio a público e disse que havia se encantando com o time de Eduardo Coudet (atual treinador do Inter) e que queria um Corinthians que jogasse para frente. Começava ali um peso ainda maior sobre uma identidade que se mostrava cada vez mais ultrapassada.

Depois de um péssimo Campeonato Brasileiro, totalmente sem ideias, amarrado a medalhões como Ralf e Jadson, o Corinthians acaba por demitir Carille, indo ao mercado buscar alternativas que criassem uma ruptura de padrões dentro do clube.


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Enquanto isso, na Europa, tínhamos um Barcelona vexatório, eliminado na Liga dos Campeões seguidamente por Roma, Liverpool e agora Bayern. O que significa de fato a derrocada de um esquema de jogo cada vez mais ultrapassado, no qual a memória afetiva do catalão mais ortodoxo e da própria direção expunha que a ideia do “tikitaka” de 2011 estava enraizado ainda em 2020, sempre com a sombra do famoso “a volta do tikitaka”, sendo que o mesmo nunca deixou de existir, ele sempre esteve lá. A diferença? Bom, estamos em 2020 agora e não em 2011. Os adversários evoluíram, encontraram antídotos e métodos de parar e brecar o popular “futebol do Barcelona”.

Os padrões atuais do esporte sugerem velocidade, intensidade e principalmente jogo vertical. E é sim possível se ter tudo que foi citado acima sem perder o controle de jogo, como o próprio Manchester City faz dentro da Europa. Mas para os barcelonistas, apenas o jeito de jogar deles é capaz de vencer tudo e todos e quando não conseguem o resultado é porque aquilo não é o verdadeiro “barcelonismo”. Um tanto quanto irônico, não é?

Voltando às terras nacionais, chegamos em um 2020 cujo os clubes seguem uma onda do futebol ofensivo, agora com Coudet no Internacional, Sampaoli no Atlético, Jesualdo no Santos e assim por diante. A onda está lançada e até as equipes com menos investimento como Fortaleza e Coritiba abordam uma ideia de jogo ofensiva, visando o jogo bonito, intenso e de qualidade, apostando em Rogério Ceni e Eduardo Barroca.

A ruptura no Corinthians começou assim, trazendo Tiago Nunes, extremamente vencedor no Athlético e dono de um jogo mais vistoso, mais intenso e muito vertical. Um time muito mais “heavy metal” do que música clássica, como diria Jürgen Klopp. Pois bem, e quais os problemas que a chegada de Tiago Nunes e a mudança de ideologia nos trazem? Bem, assim como no Barcelona com seu futuro novo treinador, Tiago terá o peso de mudar uma ideia enraizada e que dura mais de 1 década, tudo isso dentro de uma pressão por resultados e cobranças exageradas quando as vitórias não acontecerem.

Tanto parte da imprensa quanto torcedores não dão o tempo necessário para que mudanças aconteçam, querem tudo da forma mais simplista possível, desde que isso lhe traga vitórias. Tiago provou um pouco disso nesse primeiro semestre, cujo começou a ser cobrado por resultados dentro de um campeonato estadual, tendo que sucumbir e travar a evolução do time por pressão e principalmente para manter seu emprego.

Escrevo isso logo após uma coletiva do atual técnico do Corinthians na qual o mesmo diz que não vai jogar igual jogava seu antigo clube no Paraná, pois isso requer tempo e peças, fato esse que deveria ser óbvio nos dias de hoje e no futebol atual, no qual se cobram mudanças mas tampouco dão o tempo necessário para que elas aconteçam de forma perfeita e completa.

Ronald Koeman também terá cobrança descomunal, principalmente quando se propor a quebrar o famoso “barcelonismo” e se atrever a modernizar. Os mais saudosos dirão que é o fim do jogo do Barcelona, quando na verdade é apenas o começo da revolução que já deveria ter começado.

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