Dia 19 de fevereiro de 1954. Essa é a data de nascimento de um dos maiores ídolos da história do Corinthians: Sócrates. Poucos jogadores honraram e entenderam tão bem o que representa esse clube de futebol para a Fiel Torcida.

Sócrates foi contratado em 1978, depois de brilhar com a camisa do Botafogo-SP, clube que o revelou em 1974. No Corinthians, a estreia aconteceu contra o Santos, diante de um Morumbi completamente lotado, com mais de 117 mil torcedores. Quem estava no estádio não esquece da primeira impressão deixada pelo Doutor.

“Eu tinha dez anos e estava lá. Em um lance, ele erra a passada e a bola fica atrás dele, mas o doutor levanta a perna e, com o calcanhar, dá um tapa numa jogada que parecia perdida e encobre o jogador do Santos”

CELSO UNZELTE

Embora tivesse pouca idade, o jornalista Celso Unzelte, grande conhecedor da história do Corinthians, lembra bem do primeiro impacto causado por Sócrates com a camisa alvinegra. Mesmo na estreia, o camisa 8 já dava indícios de que iria mudar os ramos do clube. Títulos, gols, lances de efeito e partidas memoráveis estavam a caminho.

“Vi ele fazer coisas fantásticas. O Sócrates surpreendia, ele enxergava um colega em posição antes de você sentado na arquibancada”

CELSO UNZELTE

“Sócrates chegou para botar água na fervura”

No fim da década de 70, quando Sócrates chega ao Corinthians, o torcedor alvinegro não estava totalmente habituado a conquistar títulos. Sempre havia um clima de desconfiança e a sensação de que nada daria certo. Mas, com a presença do camisa 8, o destino passaria a mudar.

“ Ele botou uma água na fervura que ninguém conseguiu. O Sócrates nos acalmou. O Corinthians era um time traumatizado e a torcida achava que tudo ia dar errado até o ultimo minuto.

celso unzelte

Segundo o jornalista, os torcedores rivais da época enxergavam o Corinthians como um time sem direito a ter craques ou praticar um futebol vistoso. O Sócrates chega para quebrar esse estereótipo.

No entanto, a relação do ídolo com a torcida nem sempre foi lua de mel. Depois do primeiro título erguido em 79, o Campeonato Paulista, houve um hiato de dois anos sem títulos e a cobrança era inevitável.

Parte da torcida ainda o acusava de ser frio. “Passados esses anos, dá a impressão de que foi tudo cor de rosa, mas não foi. O Sócrates aprendeu na pele o que é o fanatismo no futebol e, principalmente, o “corinthianismo”, em particular”, esclarece Celso Unzelte.

Pelo Corinthians, o Doutor – apelido recebido por ter se formado em Medicina – disputou 298 jogos, marcou 172 gols e conquistou três Campeonatos Paulistas (1979, 1982 e 1983)

 Foto – Daniel Augusto Jr./Corinthians

A presença do camisa 8 fazia diferença

Ele tirava o melhor de um Biro-Biro, de um Ataliba, de vários companheiros que não entraram na história da seleção ou do futebol, mas fizeram história no Corinthians.

CELSO UNZELTE

O Sócrates se despediu do Corinthians em 1984, consolidado como um dos grandes jogadores do Brasil. Assim como Zico e Falcão, seus companheiros da histórica seleção de 82, eliminada na Copa do Mundo pela Itália de Paolo Rossi, ele também arrumou as malas para a Europa.


Sócrates jogou pela Fiorentina na temporada de 1984/85, atuou em 25 partidas e marcou seis gols
Foto – AFLOSPORT

O Sócrates tinha por si só um estilo libertário. Fumava e bebia, mesmo enquanto atleta profissional. Talvez poderia alcançar um patamar ainda maior como jogador, mas ninguém tem coragem de negar o talento do camisa 8. “Foi bicampeão paulista, num período em que o campeonato tinha o mesmo peso que o Brasileiro”, pondera Unzelte.

Ele era um um espirito livre. Fazia o que queria, até o fim da vida dele.

CELSO UNZELTE

O capítulo da Democracia Corinthiana

Além de ter sido um jogador capaz de encantar qualquer amante por futebol, Sócrates também exerceu um papel fundamental fora de campo lutando pela democracia no país.

O historiador José Paulo Florenzano, autor do livro A Democracia Corinthiana – Práticas de Libertação no Futebol Brasileiro, descreve a simbologia do Sócrates no início da década de 80. “Ele simboliza o que eu considero os anos mais revolucionários da história do futebol nacional, que é exatamente esse período em que ele vai brilhar intensamente de 78 a 84”.

Sócrates - Renato dos Anjos/Folhapress - Renato dos Anjos/Folhapress
Sócrates participou das Diretas Já, em 1984, movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas
Foto – Renato dos Anjos/Folhapress

Para o historiador, a luta do Sócrates continua mais atual do que nunca. “A figura do doutor é imprescindível para mostrar o quão importante é lutar pela conquista da democracia”, pondera Florenzano.

“ O Sócrates serviu como uma espécie de escudo para aquela enxurrada de crítica contra a democracia no futebol. O fato de ter no elenco um atleta médico , acabou de certa maneira intimidando ou pelo menos diminuindo um pouco o tom de uma parte das críticas que eram endereçadas a democracia corinthiana.

José paulo florenzano

O legado de Sócrates

Apesar de pouquíssimos jogadores se posicionarem politicamente no futebol brasileiro, seja para o lado A ou B, o Sócrates mostrou, em um período de repressão e autoritarismo no país, que o jogador de futebol pode ser porta voz de uma boa parcela da sociedade.

O Sócrates, atuante e sendo um ativista da época da ditadura militar, conseguiu chegar a seleção, conseguiu ser campeão com o Corinthians, conseguiu ser transferido para Itália, então a carreira não acabou por causa dos posicionamentos políticos.

BRILLER PIRES

O jornalista Breiller Pires entende que o grande legado deixado por Sócrates foi o de mostrar aos atletas que não é proibido se posicionar. “O jogador deve cumprir o seu papel como cidadão e aproveitar a sua visibilidade para levantar bandeiras e causas sociais”, declara Breiller.

“Se a Emenda Dante de Oliveira passar na Câmara dos Deputados e no Senado, eu não vou embora do meu país”
Foto – Reprodução/Youtube

Breiller ainda completa dizendo que, além do Sócrates ter deixado o grande legado de ser um defensor de valores democráticos e ter se oposto a ditadura militar, ele também mostrou de uma forma bem simbólica que esteve ao lado do povo e do lado certo da historia.

4 de dezembro 2011

O Sócrates morreu no dia 4 de dezembro de 2011. Na parte da manhã, veio a notícia de falecimento do maior ídolo da história do clube. No mesmo, a tarde, a taça do campeonato brasileiro era erguida, em homenagem, claro, ao doutor Sócrates. A data entrou para a história e o Corinthians homenageou o seu ídolo da maneira mais digna possível, sendo campeão.

Jogadores do Corinthians homenageiam Sócrates (Foto: Agência Estado)
Antes do jogo contra o Palmeiras, os jogadores prestam homenagem ao Sócrates reproduzindo o seu gesto característico
foto – Agência Estado

“Recebi várias mensagens e as pessoas deviam saber que eu estava abalado. Todas as trocas de condolências eram como se fosse alguém da família da gente, da convivência.”

CELSO UNZELTE

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