Em uma semana turbulenta no Parque São Jorge, com o afastamento de Sidcley e declarações enfáticas de Vágner Mancini após a derrota para o América-MG, na Copa do Brasil, o Corinthians fez o que a torcida não via faz tempo: competiu e venceu.

Desde que o treinador chegou do Atlético Goianiense, era nítida uma mudança de postura e um padrão de jogo sendo formado, mesmo com as decepcionantes derrotas contra o Flamengo, e para o próprio América. Diante do Internacional de Eduardo Coudet, o time de Mancini foi muito intenso e mostrou a identidade que o treinador tanto bate na tecla. Vamos destrinchar mais a seguir linha a linha do campo.

Por Matheus Mazon

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PRIMEIRA LINHA

A iniciar pela parte defensiva da equipe, formada nesse sábado por Cássio, Fagner, Marllon, Gil e Fábio Santos, nota-se nela a maior evolução de Vágner Mancini até aqui no Corinthians. Sabe-se que o estilo mudou e o Corinthians não tenta uma saída de bola tão aperfeiçoada como queria Tiago Nunes no início da temporada, porém hoje com Mancini a equipe consegue trocar passes defensivos e fazer boas ligações rumo ao ataque, sem correr riscos desnecessários atrás.

Quanto aos atletas individualmente, Cássio melhorou de maneira singela o desempenho, além de usar a experiência para acalmar os jogos quando o Timão recua. Nas laterais, o alvinegro está muito bem servido e se Fagner manter o ótimo nível de desempenho que apresentou contra o colorado, se torna um dos setores mais fortes da equipe, visto que Lucas Piton é muito constante e Fábio Santos retornou ao Corinthians com boas atuações. Com relação aos zagueiros, Gil entrou em boa recuperação e está demonstrando sinais de voltar a ser o jogador que o torcedor recorda com orgulho do time de 2015, e por outro lado, a grande surpresa Marllon destrói com segurança as investidas adversárias, fechando uma boa dupla.

Especificamente na partida de hoje, a defesa foi muito sólida e fez com que o Internacional ficasse pela primeira vez sem chutar uma bola sequer no gol do oponente em 2020. Confira os números defensivos da equipe no duelo:


SEGUNDA LINHA DO CORINTHIANS

Para a segunda linha do 4-4-2 de Mancini, a escolha foi por Xavier, Éderson, Ramiro e Otero. O primeiro e mais novo entre todos fez mais uma partida excelente com a camisa do Corinthians, marcando muito bem e protegendo a bola nos momentos necessários. Hoje, teve um papel defensivo mais importante do que na parte ofensiva, entretanto é inegável que preencheu todos os espaços da cancha. Foi importante e merece muitos elogios.

Éderson, assim como praticamente 100% dos jogadores, fez um bom jogo contra o Inter e foi muito útil no esquema que Vágner Mancini propõe. É nítido que o atleta não tem uma saída de bola e um passe longo tão caprichados como o de seu reserva atual Victor Cantillo, porém provou nessa rodada que é o jogador de marcação e protetor do lado esquerdo junto à Fábio Santos que o plano de jogo necessita, visto que Otero tem dificuldades na recomposição. Lembremos que quando o Timão jogar contra times inferiores e tiver uma massiva posse de bola (caso de quarta-feira, contra o América-MG), a ideia de jogo com Cantillo é interessante para tentar furar o bloqueio do adversário com o poder do passe.

Agora, falaremos de Ramiro. Por mais que a técnica do ex-gremista não se sobressaia e o jogador muitas vezes desperdiça bolas ofensivamente, hoje teve um dos melhores desempenhos do Corinthians, atuando fielmente pelo lado direito. Em um setor que o Timão falha muito defensivamente, sofrendo exatamente 10 gols (45% do total) no Brasileirão em cruzamentos ou jogadas por ali, Ramiro foi extremamente importante ao ajudar Fagner na marcação do perigoso Patrick, além de ocupar com excelência os espaços. Além disso, potencializou muito o lateral a progredir ofensivamente, ajudando na saída com triangulações e tabelas. Em números, Ramiro acertou 100% das bolas longas e dos cruzamentos que tentou, além de quatro ações defensivas importantes e quatro faltas sofridas (o que mais sofreu na equipe). Confira o mapa de calor do atleta no jogo:

Para fechar a linha, a grande incógnita pré-jogo, Rómulo Otero. Após ter sido nulo contra o Flamengo na recomposição defensiva e gols do rubro-negro terem saído pelo lado em que atuou, não havia o entendimento dos motivos de Mancini iniciar mais um jogo com o venezuelano na ponta. Mais uma vez, o jogador foi insuficiente nessa ajuda defensiva, especificamente no primeiro tempo, permitindo que o lateral-direito Heitor passasse livre ao menos duas vezes no campo ofensivo. No segundo tempo, Otero melhorou e ajudou em algumas recomposições, sendo importante quando a equipe já cansava ao decorrer dos minutos. No quesito dribles e nos duelos ganhos no chão, foi o melhor da equipe, contabilizando 5cinco fintas e dez combates terrestres com êxito. O maior problema do atleta na partida foi a precisão nos passes, anotada em apenas 54%.

LINHA MAIS AVANÇADA

No aspecto ofensivo, a última linha da equipe foi composta por dois jogadores, padrão de jogo do Mancini. Dessa vez, o treinador teria optado por Cazares e Boselli para iniciar o jogo, porém o argentino teve uma indisposição nas costas e não pôde atuar. A fim de substituí-lo, foi escolhido o surpreendente Matheus Davó, jogador iluminado e autor do gol da vitória em sua primeira partida como titular do clube.

O mais armador e criativo entre ambos, Juan Cazares, fez mais uma grande partida com a camisa do Timão, criando uma grande chance de gol e dando dois passes decisivos no duelo, além da assistência para o seu companheiro de ataque. E aliás, uma bela jogada do camisa 10 no lance do gol. Outro detalhe importante de Cazares é o seu domínio muito aperfeiçoado e a categoria para segurar a bola no ataque quando precisa esperar a subida de Fagner ou Ramiro, além de ter o potencial de acelerar e ser mais objetivo no momento necessário.

Por fim, o autor do tento Matheus Davó, estreou nos onze iniciais e virou o herói improvável da vitória. Com três finalizações, duas no alvo e uma delas, o gol, Davó fez movimentações interessantes e teve boa presença dentro da área, algo importante para completar a equipe de Mancini (que vem jogando sem um centroavante de origem). Além disso, o jogador se empenhou muito na pressão alta, incomodando bastante principalmente o defensor Zé Gabriel, ex-Corinthians.

EVOLUÇÃO FÍSICA, INTENSIDADE E IDENTIDADE DO CORINTHIANS

Para finalizar o apanhado geral, analisa-se agora os três fatores que caracterizaram muito essa partida do alvinegro paulista, todos esses potencializando os atletas analisados anteriormente. Primeiramente, a parte física do plantel é algo que deve ser melhorado com o ritmo de treinamentos e jogos. Era notório nos últimos desafios da equipe uma grande queda de rendimento no segundo tempo em comparação ao primeiro. No jogo contra o Internacional, se viu uma equipe lutando durante os noventa minutos e mais acréscimos, conseguindo segurar uma força ofensiva muito bem treinada por Coudet e comandada por Thiago Galhardo, artilheiro e líder de assistências do Brasileirão.

Ademais, a questão física se torna importante para que o time mantenha a intensidade por mais tempo, fato que ocorreu nesse 1×0, com vários picos intensos observados ao longo do combate e muita entrega. As substituições de Mancini também foram essenciais para manter essa tão sonhada partida veemente e impetuosa. A exemplo disso, a entrada de Léo Natel no lugar de Davó ajudou a manter a pressão alta nos zagueiros colorados, além das entradas de Camacho e Gabriel (muito irregular defensivamente esse ano), que mantiveram o nível de Éderson e Ramiro nas coberturas dos laterais. A última delas foi Luan, no lugar do esgotado Cazares, e entrou em sintonia com a equipe. No entanto, o camisa 7 deu azar em um gol que fez, anulado pela arbitragem.

O último e não menos importante fator, a identidade é o aspecto psicológico que mais marca o trabalho de Vágner Mancini até aqui. Desde a sua primeira entrevista, na qual prometeu que o Timão voltaria a jogar como suas origens solicitam, o treinador apenas falhou no jogo contra o Flamengo. No mais, o plantel entendeu a necessidade de jogar com disposição excessiva e a “cara” do Corinthians foi resgatada em vitórias magras e de muita entrega. Hoje, com muita solidez defensiva, aproveitamento bom de finalizações e garra durante toda a partida, realmente a vitória teve o estilo corinthiano.

CONFIRA AS NOTAS DO CORINTHIANS CONTRA O INTERNACIONAL:

Xavier fez grande partida contra o Inter pelo Corinthians (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

Cássio: Não foi exigido com defesas difíceis e quando precisou em bolas aéreas foi seguro. Ajudou com sua segurança e experiência, acalmando o jogo em momentos decisivos NOTA: 6,0

Fagner: Evolução gigantesca em detrimento aos jogos anteriores. Foi bem na defesa, exceto um drible que tomou de Patrick, e ajudou muito ofensivamente. NOTA: 7,0

Marllon: Mais uma partida interessante do defensor. Destruiu bem as tentativas de Abel Hernández e foi ótimo no jogo aéreo. NOTA: 6,5

Gil: O zagueiro vem em evolução constante nos últimos jogos, já que não fazia uma boa temporada antes da chegada de Mancini. Matou uma jogada importante de contra-ataque do Inter (recebeu amarelo). Foi bem e a expectativa é de que ainda melhore mais. NOTA: 6,5

Fábio Santos: Muito bem após o retorno ao Timão. Na partida, evitou alguns cruzamentos que seriam perigosos pelo seu lado de defesa, além de não deixar espaços aos oponentes naquele setor. NOTA: 6,5

Xavier: Melhor defensiva, do que ofensivamente. Xavier foi muito bem como primeiro homem da marcação. Preencheu espaços e demonstrou muita entrega. Bela partida do jovem atleta! NOTA: 7,0

Éderson: Ainda sem ter excelência em ações técnicas, Éderson cumpriu bem sua função hoje. Combativo e muito forte na marcação, merece ser elogiado pelo bom desempenho. NOTA: 6,5

Ramiro: Está entre os dois melhores da partida, ao lado de Cazares. Ajudou muito em todos os terços do campo pelo lado direito. Fortalecimento defensivo, muita entrega e colaboração ofensiva. NOTA: 8,0

Otero: Teve mais entrega em comparação aos jogos anteriores e principalmente no segundo tempo foi bem defensivamente. No primeiro, foi mal. Ofensivamente, foi bem nos dribles, mas deixou a desejar e criou pouco. O que chamou atenção também foi o desempenho abaixo nas cobranças de escanteio. NOTA: 6,5

Cazares: Muita técnica envolvida, domínio aperfeiçoado e passes precisos. Nesse jogo, teve o entendimento ideal de um camisa 10 dentro de campo. O aguardo é pela melhora da parte física, que ainda não está suficiente. NOTA: 8,0

Matheus Davó: Se movimentou bem e fez o gol decisivo, além de buscar se posicionar para finalizar em gol. Ajudou também na marcação, se empenhou bastante. NOTA: 7,0

Léo Natel: Entrou bem. Cumpriu o que Davó vinha fazendo na partida e segurou a bola no ataque enquanto precisou administrar o tempo. Melhor do que contra o América-MG, quando entrou muito mal. NOTA: 6,0

Camacho: Apareceu pouco, pois não foi muito acionado. Na marcação, não diminuiu o nível de Éderson e se mostra uma boa opção para entrar durante as partidas. NOTA: 6,0

Gabriel: Em uma posição diferente do que normalmente atua, Gabriel entrou no lugar de Ramiro e obteve um desempenho interessante. O jogador até fez uma bela jogada de contra-ataque, com direito a chapéu no adversário. NOTA: 6,5

Luan: Entrou sendo acionado algumas vezes e trocou passes interessantes na frente, recebendo e soltando nos extremos. Ainda falta mais mobilidade ao atleta e está atrás na disputa com Cazares. Teve um gol anulado, que causou “burburinho” entre os torcedores por ter sido falta (ou não) do Ramiro no lance. NOTA: 6,0

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