As histórias infantis, em sua maioria, trazem um encerramento feliz e em algumas vezes, no caso das fábulas, uma lição de moral. Não é raro ler um “e viveram felizes para sempre”, para um casal perdidamente apaixonado, que invariavelmente se livrou do vilão da história, em uma luta épica ou uma intervenção divina.

No futebol brasileiro estamos acostumados a vários contos de fadas. Com a maior parte da população sendo pobre, ascensões sociais acontecem aos montes, muitas dessas sendo com jogadores vindos da Copa São Paulo de Futebol Junior.

É fato sabido que a copinha revela punhados de jogadores todos os anos. Jovens que vêm literalmente de todos os cantos do país buscam seu lugar ao sol no glamouroso (para a minoria) futebol.

Claro, o mundo é cruel e a maior parte vai se tornar um trabalhador comum, como eu ou você, mas para alguns a chance vem. Um exemplo de jogador que teve a chance da bola premiada é Gustavo Henrique da Silva Sousa, conhecido como Gustagol.

Gustavo comemorando um gol com Ralf (Foto: Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians)

Gustavo se destacou em uma edição da Copinha, sendo o camisa 9 do Taboão da Serra. É muito comum que times menores apostem em jogadores oriundos da várzea para compor seus elencos na competição de base, e Gustavo é um desses exemplos.

Forte, alto e sem base, ele fazia o que se espera de um 9: empurrava pra dentro e incomodava os zagueiros.

Depois do Taboão, o Criciúma. Gustavo teve uma arrancada de gols na Série B de 2016. Num campeonato de nível técnico baixo, empilhar gols não é necessariamente um trabalho árduo. E convenhamos que, pelo menos no último toque, Gustavo tem qualidade.

Aí aconteceu o voo de Ícaro do nosso conto de fadas: o Corinthians.

Gustavo assumiu a camisa 9, antes usada por Guerrero e Love, e num time carente que acabava de perder o maior técnico de sua história – Tite – e outros jogadores importantes como Bruno Henrique, Renato Augusto, Gil e o próprio Love. Num Corinthians em frangalhos, sem dinheiro e com um técnico cuja maior realização foi ser piloto automático do Vasco de Ricardo Gomes, Gustavo sofreu.

Sofreu com o time, com Cristóvão Borges e sofreu consigo mesmo, já que era apenas um garoto de 22 anos ansioso por estrear pelo time do coração. Gustavo ainda fez uma tatuagem de sua própria imagem com a camisa do Corinthians, o que só reforçou a piada que foi sua primeira passagem.

Janeiro de 2019. Após empréstimos por Bahia, Goiás e Fortaleza, Gustavo retorna com bagagem, evolução e esperança. Rogério Ceni havia o transformado em uma máquina de fazer gols e Fábio Carille, retornando, estava pronto para ligá-la.

Gols em sequência no Paulistão reforçaram que Gustavo era outro jogador. Útil. Mas o que era uma excelente novidade se tornou uma saída manjada. Sornoza parou de cruzar a bola quando todos esperavam o passe baixo. Agora qualquer time sabia que a jogada do Corinthians era a ótima bola parada de Sornoza para Gustavo, de ótimo tempo de bola, testar para o fundo do gol, ou para achar um desvio dentro da área. O que funcionou com Jô não funcionaria com Gustavo pela principal diferença entre eles: Jô sabe jogar futebol.

Gustavo perdeu o encanto, voltou a tropeçar na bola, errar passes de 3 metros e irritar a torcida. Colocá-lo em campo no segundo tempo significava abdicar da bola no chão e se limitar a torcer para que um cruzamento chegasse a ele. Começar com ele significava que o jogo seria sofrimento e irritação.

Com a chegada de Tiago Nunes, muito se discutiu a função de vários jogadores no elenco corintiano. Um deles era bola cantada pra sair. Gustavo não seria o centroavante titular, papel que desde o ano passado já deveria ser de Mauro Boselli, tampouco o reserva imediato, já que Vagner Love, se limitando a dois ou três toques na bola ainda é infinitamente superior ao “cone” Gustavo.

Com a eliminação na Libertadores, tendo em si uma jogada simbólica (Gustavo recebeu um passe açucarado de Luan, mas tropeçou no domínio, na bola e em suas próprias pernas), era claro: o conto de fadas de Gustavo acabou. Desde o princípio a paciência da torcida se devia mais ao DESEJO de que Gustavo desse certo do que à esperança de que isso acontecesse.

Voltando aos contos de fadas: a Disney modificou todos os finais de suas histórias, já que os irmãos Grinn, autores de vários desses títulos, escreviam finais tortuosos, macabros e sangrentos. Gustavo poderia ter sido um centroavante da Disney, mas sua passagem pelo Corinthians, que parece estar perto do fim, foi certamente escrita pelos irmãos Grinn.

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