Analisar dados e lances de partidas do Corinthians é um dos pilares para a produção de conteúdo do SCCP Scouts. Preocupado em destrinchar cada detalhe do clube alvinegro, a equipe também não pode deixar de lado a Cultura Corinthiana para ressaltar a importância da torcida e de cada posicionamento político, justificando todas as lutas na história do Timão.

Pensando nisso, o SCCP Scouts inicia uma série de publicações sobre a importância do Corinthians para a sociedade e como, durante as décadas, o clube se tornou um dos maiores representantes de grupos que ainda lutam por igualdade.

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No dia primeiro de setembro de 1910, o Sport Clube Corinthians Paulista foi fundado por cinco operários, surgindo como um time popular em São Paulo. Na mesma época do surgimento alvinegro, a cidade já sofria algumas transformações em sua configuração. Era contemplada com a construção de parques e praças, como o Belvedere Trianon (local onde hoje o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, faz parte), além da arborização e asfaltamento da primeira via pública da cidade, a Avenida Paulista.

Na década de 1910, a população de São Paulo era estimada em 346.410 habitantes, sendo um terço dessa parcela composta por operários. Na Rua José Paulino, esquina da Rua Cônego Martins, cinco trabalhadores, de pintores de parede, sapateiros a empregados braçais, foram responsáveis por fundar o Corinthians: Anselmo Correa, Antonio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone.

Para o historiador Marco Lourenço, editor do Ludopédio, um portal acadêmico de futebol da América Latina, o Corinthians surge como um time que não fazia parte da aristocracia paulistana e conclui que só o fato desses cinco operários conseguirem se organizar para formar um time já era significativo para a época. “Quem podia aproveitar o tempo livre para praticar um esporte e abrir mão do trabalho eram membros da elite”, escreve Lourenço.     

O historiador também afirma que o surgimento do time alvinegro proporcionou a essas pessoas uma equipe para torcer e sentir identificação, uma vez que os demais times representavam os interesses da elite.

O jornalista Breiller Pires, comentarista da ESPN e repórter do jornal El País, comenta que o Corinthians surge como um contraponto daquele período, uma vez que o futebol praticado no Brasil marginalizava as pessoas mais pobres. “Havia muitas ligas amadoras de futebol, mas elas nunca foram reconhecidas pelo sistema aristocrático que organizava as competições.”

“As pessoas mais pobres, das camadas mais desfavorecidas da sociedade, enxergavam no Corinthians um espelho para suas próprias histórias’’

Breiller Pires, jornalista da ESPN e do El País Brasil

O jornalista acredita que o Corinthians representava os anseios de uma fatia expressiva da população de São Paulo. “Um anseio de ser reconhecida, de ser vista e de não ser mais marginalizada”.

No entanto, o fato de ter sido o primeiro time da cidade a aceitar trabalhadores braçais e ter jogadores negros no plantel, não foram os únicos fatores que tornaram o clube seguido por milhões de pessoas ao longo dos anos. Os bons resultados dentro de campo também têm um peso importante.

Apesar de ser um clube que só disputava ligas amadoras, isso não impediu que o Corinthians competisse de igual para igual com os times da elite no começo, muito pelo contrário. Ou seja, a importância não fica só no âmbito da representação do povo, mas também da popularização do futebol no país.

Marco Lourenço caracteriza o Corinthians como um time responsável por quebrar um paradigma naquela época, pois, mesmo tendo condições diferentes dos demais, disputara cabeça a cabeça com os times já estruturados “Esse fenômeno permitiu que outros times se encorajassem a jogar contra os que faziam parte da aristocracia”.

O historiador também explica que nos anos 20 e 30, havia dois campeonatos acontecendo em paralelo, o da LFP – Liga Paulistana de Futebol – e o da APEA – Associação Paulista de Esportes Atléticos, ou seja, os times com menos estrutura também resolviam se organizar para competir.

O CORINTHIANS PERDEU A SUA ESSÊNCIA?

“Corinthians é uma voz, força e uma forma de expressão que a população tem”

Sócrates, ídolo do Corinthians

O discurso emblemático do Sócrates ilustra bem a força e a representatividade quando o time surgiu em 1910. No entanto, para Breiller, esse discurso está cada vez mais distante da realidade hoje em dia. “Desde que o Corinthians se mudou para Arena, o ingresso aumentou muito. Perdeu a sua essência. O povão é trocado em um processo de elitização do futebol”.

“Eu acho que é interessante quando o clube usa isso como uma marca, o time do povo, se orgulha dessas raízes, mas essa não pode ser uma marca alegórica”

Breiller Pires, jornalista da ESPN e El País Brasil

Pela sua história e origem popular, Breiller acredita que o Corinthians tem uma dívida muito grande com a sua base e com a sua torcida. “Por ser uma das equipes mais populares desse país, sua torcida precisa se ver mais representada”.

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