Revelado pelo terrão, Jô estreou em 2003 aos 16 anos pela equipe profissional. Com carreira internacional e na Seleção Brasileira, o atacante retornou ao Timão para sua terceira passagem em 2020 cercado de expectativas. Porém, meses depois, suas atuações dividem a Fiel. Afinal, vale a pena insistir nele na equipe titular em 2021?

A estreia do atacante em 2020 aconteceu na partida válida pelas quartas de final do Campeonato Paulista contra o Red Bull Bragantino. Segundo o então técnico Tiago Nunes, a volta de Jô precisou ser apressada, por conta da lesão de Mauro Boselli, titular e único atacante na equipe até então.

A falta de ritmo de jogo e de condicionamento físico ficaram evidentes aos telespectadores, que, ainda assim, viram Jô marcar de cabeça na vitória corintiana por 2×0. Depois dessa partida, mesmo sem grandes atuações, Jô ganhou sequência com Tiago Nunes. Coelho, que sucedeu Tiago, também manteve Jô como um dos pilares da equipe. O mesmo ocorreu com Mancini, que sempre optou por Jô no time quando ele esteve à disposição. Por quê?

A PRESENÇA DE JÔ ATRAINDO A DEFESA ADVERSÁRIA

Os anos de experiência podem ter tirado de Jô parte de sua intensidade, mas entregaram a ele boa leitura tática e posicionamento em campo. Responsável pela profundidade na região central do ataque, é Jô quem evita que os zagueiros saiam para pressionar os portadores da bola corintianos na intermediária ofensiva. Bem posicionado e com grande poder de finalização, ele exige atenção constante da defesa adversária. Soma-se a isso a carreira internacional e na Seleção, o que confere a ele uma imagem temida pelos defensores.  

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Em um dos raros momentos em que ficou desmarcado, Jô não desperdiçou a oportunidade cara a cara com Tadeu para anotar o gol da vitória do Corinthians contra o Goiás. 2×1 Timão.

A ação do atacante em momento ofensivo é fundamental para que o meio-campo do Corinthians consiga propor o jogo, preservando a posse de bola no campo de ataque por mais tempo. Além disso, quando Jô sai da área para participar da construção da jogada, atrai a atenção da marcação adversária e desorganiza a linha defensiva. Essas duas situações táticas ficaram claras nas últimas vitórias do Timão, contra Goiás e Botafogo.

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A jogada ilustra a importância de Jô para aumentar a liberdade dos meio-campistas corintianos, como Ramiro e Cazares. O lance acima terminou em grande finalização de média distância de Ramiro, exigindo boa defesa de Tadeu.

NÚMEROS AJUDAM A EXPLICAR A IMPORTÂNCIA DE JÔ

Quando comparadas as partidas de Jô, Natel e Davó (considerando apenas os jogos em que estes dois últimos atuaram como atacantes) sob o comando de Vagner Mancini, alguns números chamam a atenção.

Em média, Jô gera 1,2 passes certos para finalização de companheiros por jogo. Já Natel e Davó permanecem zerados na estatística. Além disso, Jô tem em média 34 ações com a bola por jogo, e 72% de aproveitamento dos passes. Esses números sobem para 41 ações e 80% de aproveitamento quando considerados apenas os dois últimos jogos, contra Goiás e Botafogo, quando Jô esteve melhor fisicamente.

Os números de Léo Natel (por exemplo, com 63% de aproveitamento dos passes) e Matheus Davó (com apenas 22 ações com a bola em média por jogo) não se aproximam dos valores dos últimos jogos de Jô. Isso mostra que Jô auxilia mais os meio-campistas a gerarem volume de jogo, sem a necessidade de atacarem em transição.

Inicialmente utilizados apenas pelos lados do campo, Natel e Davó foram aproveitados por Mancini como atacantes mais avançados por terem velocidade. Este atributo facilita a infiltração nos espaços proporcionados por adversários que atacam o Corinthians com um número muito elevado de jogadores – casos de São Paulo, Grêmio e Atlético-MG. Nestes jogos, o Corinthians atacou em transição e a bola pouco permaneceu no campo de ataque.

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Na vitória contra o São Paulo, Léo Natel aproveitou os ataques rápidos do Corinthians para infiltrar nos espaços da defesa tricolor. Assim, teve boas oportunidades de marcar, mas todas foram desperdiçadas.

A estratégia funcionou para esses jogos, mas não parece a ideal contra adversários menos expostos. Conduzindo o time a uma evolução ofensiva, Mancini busca um Corinthians mais propositivo, com mais repertório para furar os bloqueios exercidos por esses times – que são a maioria, no Campeonato Brasileiro. E, para isso, a figura de um jogador de técnica mais apurada, que prenda os zagueiros e permita a movimentação dos meio-campistas em seu entorno, é importante.

BOSELLI NÃO PODERIA TER FEITO A FUNÇÃO DE JÔ?

Mauro Boselli é um atleta com características mais próximas às de Jô. No entanto, seu alto salário, a idade avançada, sequências frustrantes com treinadores anteriores e o encerramento de seu vínculo contratual com o Corinthians em dezembro de 2020 pesaram para que fosse pouco aproveitado por Mancini. Nos bastidores do Timão, informações dão conta de que o jovem Cauê, da equipe sub-20, deve ser o escolhido do comandante corintiano para fazer sombra a Jô em 2021.

MAIS ALGUÉM DISPUTA A VAGA COM JÔ?

Tendo atuado como homem mais avançado no início de sua passagem pelo Grêmio, Luan pode ser uma boa alternativa a Jô. Sem espaço no meio-campo após a ascensão de Cazares, o camisa 7 tem mais capacidade técnica que Jô, mas precisaria se readaptar à função de homem mais avançado do time.

Em uma experiência isolada nessa função no Campeonato Brasileiro, Luan não foi bem na derrota por 2×1 diante do Ceará. O mapa de calor ilustra sua dificuldade de dar profundidade às ações ofensivas e evitar o recuo para ir ao encontro da jogada.

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O mapa de calor evidencia a dificuldade de Luan de se manter em posição mais avançada no campo, sem recuar para buscar a bola. Posicionado como atacante, o camisa 7 foi presença raríssima na área do Ceará.

Lançar Luan como atacante pode representar a única saída para que ele se torne uma peça útil no time de Mancini em 2021. Afinal, a intenção de apresentar um Corinthians intenso e propositivo não combina com um jogador menos ágil como ele no meio-campo.

Luan como falso 9 pode ajudar mais que Jô a abrir espaços nas defesas adversárias com bons passes para a infiltração de outros atletas e a prender a bola no campo de ataque para rondar a área adversária, proporcionando volume de jogo e potencializando a criação de jogadas. Portanto, a pergunta “existe Corinthians sem Jô em 2021?”, ainda sem resposta, deve ser acompanhada de uma outra: “existe Corinthians com Luan em 2021?”

Texto escrito antes de Corinthians 5 x 0 Fluminense

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