No último dia 15 de janeiro, completou-se uma semana da reunião organizada pelo Corinthians com os integrantes do coletivo Fiel LGBT, para corrigir um post homofóbico, publicado no Twitter. O encontro foi um pontapé inicial da nova gestão do clube para debater sobre homofobia no futebol e, claro, também na própria torcida.

O coletivo Fiel LGBT existe desde dezembro de 2019 e foi criado por Railson Oliveira, 25 anos, que é presidente do grupo.

“Infelizmente o futebol ainda é machista e, principalmente, homofóbico. Com o nosso coletivo, queremos representar toda a comunidade LGBT que torce para o Corinthians.”

RAILSON OLIVEIRA

Railson também comenta que o grande objetivo do grupo é fazer com que gays, lésbias e transsexuais percam o medo de frequentar os estádios de futebol por receio de ser alvo de agressão ou até mesmo de preconceito.

A torcida LGBTricolor, do Bahia, serviu de inspiração para o Railson
Foto – Marcelo Malaquias

Além de Railson, há mais quatro colaboradores no grupo. Um deles é Marina M, 26 anos, vice-presidente, que não quis ter o sobrenome identificado por medo de repressão. Ela entrou para o coletivo no meio do ano passado para cuidar das redes sociais, Twitter e Instagram.

“Como entrei em meio à pandemia, eu fui conhecer o Railson e o restante nessa reunião com o clube. A gente não vê a hora de, quando poder voltar a torcida nos estádios, poder fazer essa bagunça”, acrescenta.

Mensagens de ódio e ataques cibernéticos

Para atrair mais pessoas identificadas com o coletivo, o Fiel LGBT criou um grupo no WhatsApp justamente para promover a integração entre os torcedores. Mas, por conta de invasões e ataques cibernéticos, os administradores tiveram de rever a segurança.

“A gente divulgou o link do grupo nas redes sociais e sofremos ataques cibernéticos de pessoas mal intencionadas. Mandaram mensagens e figurinhas com discursos de ódio, queimando bandeira LGBT, etc”.

MARINA M

Para Marina, esses ataques simbolizam o preconceito ainda presente no país contra a população LGBTQI+. “Não é exclusivo de torcedores. A partir do momento que o futebol está incluído na sociedade, esse ódio às pessoas LGBT acontecem”.

Reunião com a diretoria

Segundo a nota oficial divulgada pelo Corinthians, a reunião contou com membros das áreas de Marketing, Comunicação e Responsabilidade Social do clube.

“Essa primeira reunião foi mais para gente se conhecer. Nada foi decidido, foi uma conversa bem amigável e produtiva. Nós apresentamos ideias para possíveis projetos, são ideias que estão sendo estudadas pelo clube e pela gente também”, explica Marina.

Marina entende que esse encontro entre membros da diretoria e o coletivo foi uma abertura importante e um grande passo para diálogo e espaço para debater propostas efetivas.

“Por enquanto não existem projetos concretos. Estamos debatendo ideias para que, no futuro, espero que próximo, a gente consiga fazer algo juntos”

MARINA M.

Railson espera fazer mais ações em conjunto como essa e acredita que a iniciativa pode servir de espelho para outros. “Tenho certeza que outros grandes clubes vão abrir espaços para seus respectivos coletivos de torcidas LGBT”.

“ Se eles realizarem pelo menos uma das pautas que apresentamos ao clube, o futebol brasileiro dará um grandíssimo passo para discutirmos esse ponto”, afirma Railson Oliveira.


O coletivo Canarinhos Arco-Íris representa 14 coletivos de torcidas LBTQI, dentre eles o Fiel LGBT
Foto – reprodução

“É uma responsabilidade grande. Estar lá numa reunião com o clube. Já começa que o futebol é movido pela paixão, eu sou apaixonado pelo Corinthians desde pequena, e nunca pensei que em algum momento eu ia estar lá sentada debatendo esse tipo de coisa”, diz Marina.

Ela reconhece que o coletivo representou muitos torcedores na reunião. Uma parta da torcida que precisa ser respeitada e mais representada nas arquibancadas.

“ Eu criei o coletivo para ter o direito de ir ao estádio sem medo de alguém descobrir que sou gay e lá sofrer algum tipo de represália por isso.”

Railson Oliveira

Para Marina, o dia 15 de janeiro vai ficar marcado como uma porta aberta de discussão sobre homofobia no Corinthians. “Tenho consciência de que a gente tem muito trabalho a ser feito ainda”, complementa.

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