A data da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, é um marco para refletirmos profundamente sobre os principais problemas de nosso país. O racismo, junto às desigualdades sociais e injustiças, infelizmente são mazelas ainda enraizadas em nossa sociedade. Mas, historicamente falando, se olharmos para o nosso futebol, o cenário não é muito diferente.

O aumento, ou até mesmo inclusão, de jogadores negros nos planteis dos clubes brasileiros aconteceu de maneira lenta. Para o cientista social Marcel Diego Tonini, pesquisador de racismo no futebol, podemos elencar alguns times importantes nesse processo histórico de diversidade racial no futebol brasileiro. Ele cita o Corinthians como um deles.

“Foi um dos clubes que se valeu do futebol praticado por negros. Vale lembrar que, até 1926, eles estavam restritos aos clubes de várzea.” Tonini também afirma que o Corinthians ocupa o mesmo papel que outras equipes da elite paulista na passagem dos anos 1920 e 1930.

Segundo registros históricos, a Ponte Preta, conhecida como pioneira na democracia racial do futebol, é um caso emblemático, uma vez que teve como um de seus fundadores e primeiros atletas o negro Miguel do Carmo.

Foto – Reprodução

Apesar do Corinthians ter sido uma peça importante na causa racial, não é correto afirmar que foi um fenômeno exclusivo da equipe paulista naquela época. “Num cenário mais amplo, abrangendo o Rio de Janeiro, havia clubes que já tinham tido atletas negros, como o Bangu, o São Cristóvão ou mesmo o Vasco da Gama”, pondera Marcel.

Tonini ressalva que nas ligas varzeanas, dos mais variados estados, atuavam clubes compostos por jogadores negros, como a Liga Suburbana de Football (Rio de Janeiro), a Liga Rio Branco (Rio Grande), entre outras.

“Entre os clubes, as histórias mais conhecidas são a da Ponte Preta, a do Bangu, a do São Geraldo, a do Campos dos Goytacazes e, em especial, a do Vasco da Gama, campeão da 1ª divisão do Rio de Janeiro em 1923, um feito que surpreendeu a todos e causou cisões na Liga Metropolitana de Football.”

MARCEL DIEGO TONINI

Corinthians e as causas sociais

O Sport Clube Corinthians Paulista, fundado em 1910, é um time oriundo da várzea. A história mostra que, diferente de outras equipes da capital paulista, ele já nasceu em um ambiente mais popular.

Marco Lourenço, historiador e editor do portal Ludopédio, explica que, pelo fato do clube não ter tido um berço aristocrático, estritamente branco e rico, as sociabilidades que envolviam o Corinthians já contavam com negros e mestiços pobres da cidade.

Em 1988, Viola marcou o gol que deu o título ao Corinthians no “Paulista da Abolição”
Foto – Reprodução

Em 1919, pela primeira vez um jogador negro vestiu a camisa do clube: o atacante Bingo. Depois dele, só dois anos depois o time voltaria a ter outro atleta negro em seu plantel para a disputa dos campeonatos. Durante toda a década de 1920, Tatu foi o segundo jogador a vestir a camisa alvinegra. 

O pesquisador Tonini explica o motivo da baixa presença de jogadores negros nos principais elencos das equipes daquele período. “Seja no Corinthians, seja no futebol da elite paulista, a presença negra era incômoda”.

Para o historiador Lourenço, em determinado momento da história, a insistência do Corinthians em incluir negros no time passava mais pelo interesse em montar uma equipe competitiva do que propriamente por uma afirmação ética de combate ao racismo.

“Recrutavam talentos dos times de várzea, em grande parte compostos por negros e mestiços”, afirma o pesquisador.

Wladimir disputou 805 jogos com a camisa do Corinthians e é tido como um dos maiores jogadores da história do clube
Foto – Lemyr Martins

A origem popular do clube influenciou a camada mais pobre da população a criar uma relação de identificação com o Corinthians. Lourenço ressalta que o fato do cântico “Corinthiano, moloqueiro, sofredor” ser um dos mais conhecidos da torcida não é por acaso.

“Ali aparece um valor periférico, marginal. Sofredor pela fila de títulos, é claro, mas também pela origem popular”.

Marco lourenço

Para o historiador, ao longo do tempo foi construída uma imagem do corinthiano como o estereótipo do pobre. “As piadas classistas que associam a imagem do torcedor à criminalidade são reforçadas por esses dois pilares identitários: a pobreza e a negritude”.

Foto – Alan Morici/AGIF

O jornalista Breiller Pires, da ESPN e El País, também reconhece a representatividade do Corinthians para as camadas populares, mas também ressalta os fatores do campo.

“Ele tem essa importância simplesmente por existir e por ter ao longo da sua história inúmeros ídolos negros. São muitos jogadores que tiveram destaque no Corinthians e de alguma forma ajudaram a levar essa bandeira da representatividade racial pelo menos para os gramados”, esclarece o jornalista.

Embora a diversidade apareça dentro de campo e de maneira bem evidente, fora dos gramados a situação é bem oposta. Breiller cobra por algo mais democrático e inclusivo em membros da diretoria e cargos de gestão dentro do clube. “É inadmissível que o Corinthians, em mais de 100 anos de história, nunca tenha tido um presidente negro”.

“É preciso que o clube desenvolva práticas antirracistas para romper essas amarras e incentivar pessoas negras a assumirem cargos no conselho”

BREILLER PIRES

Consciência Negra e o esporte

A voz dos atletas tem um alcance considerável e o esporte é um grande palco para reivindicações e manifestações políticas. Há espaço, inclusive, para a mídia debater e colocar em pauta a problemática do racismo, não só no Brasil, mas também no mundo inteiro.

Para Breiller Pires, é sempre um marco quando há debates desse tipo na grande imprensa, mas ele também pondera que é preciso trazer esse discurso de maneira permanente e não só em datas comemorativas.

Foto – Twitter/reprodução
Sob o comando do diretor Marcelo Carvalho, o Observatório da Discriminação Racial realiza um grande trabalho de conscientização antirracista no meio esportivo

“Que a data da consciência negra sirva para abrir os olhos e para mostrar que o racismo é estrutural e precisa ser enfrentado por todos.”

Breiller Pires

Embora há quem pense o esporte como algo à margem da sociedade, o cientista social Marcel Diego Tonini entende que o futebol reproduz à sua maneira o racismo estrutural da sociedade brasileira.

“Mesmo que tenhamos uma grande presença de negros enquanto roupeiros, massagistas e jogadores, não os vemos como preparadores físicos, treinadores, médicos, gestores, dirigentes, árbitros e jornalistas esportivos. Isso é revelador de nossa sociedade. O futebol, aliás, não seria avesso à ela.”

MARCEL DIEGO TONINI

Breiller acredita que é necessário atuar em várias frentes para combater o racismo no futebol brasileiro. A mais importante delas é a prevenção e a punição de injúrias e de ofensas racistas contra jogadores negros. “É necessário oferecer respaldo para que os atletas denunciem e principalmente para que os agressores não passam impunes como geralmente costuma acontecer.”

Foto – Reprodução
Cria das categorias de base, Betão jogou no Corinthians de 1994 a 2007

“É preciso ter uma data para que no futuro a gente consiga ter um ano inteiro ou décadas de debates sobre a questão racial pela dívida histórica que o país tem com a sua população negra”.

bREILLER PIRES

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