Corinthians e Palmeiras não é um clássico como qualquer outro. Como Lima Duarte eternizou, na celebre frase no filme ‘Boleiros- Era uma vez o Futebol’: “A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians”. Ela tem muito sentido na vida dos torcedores de ambos os times. O tom de rivalidade e importância dos dérbis é muito acentuado quando há o encontro numa final. Isso tudo já é bastante tempero para inflamar o jogo.

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Mas adicione também alguns fatores: 20 anos sem um clássico desses numa final de campeonato estadual, ânimos exaltados dos dois lados por boas campanhas recentes (os dois clubes haviam vencido os últimos três campeonatos brasileiros) e muita disputa nos bastidores. Estavam todos ingredientes para ser uma grande final.

Aliás, as finais começaram antes do primeiro jogo, no dia 31 de Março. Na quarta feira anterior, dia 28, o Corinthians conseguia a vaga na final na raça. Com gol de Rodriguinho nos acréscimos do segundo tempo, a vitória por 1 a 0 devolvia o placar do jogo de ida (a favor do São Paulo, no Morumbi) e levava a disputa para os pênaltis. Ali, Cássio mostrou mais uma vez sua grandeza, seja em altura física, como qualidade técnica e estudo, para pegar duas cobranças e classificar a equipe numa das noites mais memoráveis da Arena Corinthians. O Palmeiras havia se classificado na outra semifinal contra o Santos, um dia antes, também nas penalidades máximas.

Cássio brilhou nas penalidade para garantir a vaga na final, (Foto: Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians)

O confronto fora de campo, o primeiro deles nesta final, aconteceu para decidir a data do jogo de ida da finalíssima. O cenário era o seguinte: Os dirigentes do Palmeiras queriam uma antecipação da partida para sábado, pois na terça seguinte haveria rodada da Libertadores, ou seja menos de 66 horas entre uma peleja e outra. Porém, a mudança prejudicava o Corinthians, que teria menos descanso que o adversário e o previsto por lei. A primeira derrota aconteceu, as equipes se encontraram na Arena em Itaquera no sábado, 17 horas.

O Corinthians não vinha de uma campanha muito linear no Campeonato Paulista. Nas 12 rodadas da fase inicial, foram 7 vitórias, 3 derrotas e 2 empates, além de duas derrotas nos jogos de ida das quartas e semifinais. Mais do que isso, com a perda de Jô, ponto central do ataque na campanha vencedora do Campeonato Brasileiro do ano anterior, havia sido vendido Nagoya Grampus, e o treinador Fabio Carille ainda quebrava a cabeça para montar o ataque. Júnior Dutra havia chegado para ser o centroavante, mas não vinha em atuações consistentes, fazendo Carille, ao longo do torneio, experimentar formações sem um camisa 9 de ofício. Emerson Sheik foi escalado diversas vezes mais centralizado, mas com liberdade de movimentação, o que também não se mostrava 100% confiável tanto pela característica de Emerson, quanto pela sua idade e decadência física natural.

Então, se o time já era criticado por não fazer gols mesmo campeão em 2017, com as indefinições do início de 2018 as críticas eram ainda maiores.

Para a final, Carille contava com o retorno do zagueiro Balbuena, que voltava da seleção paraguaia, assim como Romero, que ficou no banco. O desfalque de Jadson pesou contra, assim como o já citado desgaste da semifinal. Assim o time foi a campo: Cássio; Fagner, Balbuena, Henrique, Sidley; Gabriel, Maycon; Vital, Rodriguinho, Clayson e Emerson Sheik. O começo foi complicado para o Timão, que tentou se impor a frente, mas tinha pela frente um adversário mais descansado e bem postado sabendo expor as fragilidades do time da casa.

Com o gol de Borja logo aos seis minutos, o Palmeiras ficou mais com sua estratégia. A primeira parte do duelo, que vinha muito tensa, terminou uma confusão generalizada, tendo Clayson e Felipe Melo sendo expulsos. A segunda etapa foi de um Corinthians no ataque, mas sem pernas ou cabeça para a reação. Detalhe para a entrada de Danilo, que naquele ano ainda seria utilizado diversas vezes no papel de centroavante, por sua qualidade e porte físico.

Clayson bem que tentou, mas conseguiu somente confusão na partida de ida. (Foto: Rodrigo Gazzanel/Ag. Corinthians)

Contrastando com a semana anterior, após a derrota, Carille e seus comandados teriam uma semana inteira para descanso e preparação para a decisão. E esse período foi muito bem aproveitado pelo treinador. Houve a consolidação da forma de jogo no 4-2-4 e formação dos mecanismos fundamentais, sobretudo no ataque: Dois pontas que davam amplitude, velocidade e que tinha gás para atacar e defender, aliados a dois meias cerebrais centrais, que ocupavam espaços, se revezavam e compensavam a falta de um camisa 9 com movimentação, qualidade técnica e inteligência.

Esse tipo de formação lembrou muito o time que levantou a Taça Libertadores da América em 2012. Liedson, centroavante propriamente dito, era preterido para que Danilo e Alex fossem os meias centrais junto de Sheik e Jorge Henrique pelas pontas. Na comparação com os dois times, em ideias, haviam muitas similaridades, como por exemplo, o quarteto não fixando posição (não era anormal Danilo ou Alex indo para as pontas para ter Sheik mais próximo ao gol). As semelhanças não param aí, quando vemos a dupla de volantes Gabriel e Maycon tendo características próximas a Ralf e Paulinho (um com maior poder de marcação e outro com inteligência para infiltração e chegada ao ataque). Carille, com o que tinha em mãos, iria replicar a estratégia vencedora de seu mentor Tite. Para isso, a semana foi extremamente importante para acertar alguns mecanismos, como a substituição do suspenso Clayson.

Não foi só fé! Carille aproveitou bem a semana para descansar os jogadores e preparar o time para a grande final (Foto: Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians)

Mas um dérbi não é só decidido no dia do jogo. Houve mais disputa nos bastidores. O Corinthians planejava fazer um treino aberto em Itaquera na véspera do jogo afim de dar aquele ânimo aos jogadores e ter o último encontro com a torcida antes do jogo final. Estava tudo certo até que os rivais tivessem a mesma ideia. Os estádios são dois extremos da mesma linha de metrô, há anos que jogos dos clubes da capital paulista não podem acontecer na cidade no mesmo dia por conta da facilidade dos deslocamentos entre torcidas e o quanto isso propicia confusões. Para os treinos abertos, a mesma política foi adotada pelos órgãos competentes e aí foi o embate: quem cederia a mudança do treino aberto? Numa reunião até que civilizada, pelo que sabemos, foi decidido que o treino do clube alvinegro seria modificado para a sexta.

Naquele 6 de Abril de 2018, uma das maiores demonstrações de amor de uma torcida pelo seu time e uma das mais belas festas do futebol aconteceram em Itaquera. Mais de 37 mil fiéis estavam lá com bandeiras, sinalizadores e muita voz para apoiar o time. É verdade que a semana pré jogo não foi fácil, com muitas provocações vindo dos torcedores clube da Barra Funda (quem não se lembra do eterno “que momento vive a torcida ou as faixas deles de campeões paulistas). Mas a festa da fiel foi um marco para mostrar que o sentimento pelo Corinthians superaria todas essas e outras adversidades.

Uma das grandes demonstrações de amor da Fiel pelo clube (Foto: Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians)

No grande dia, os nervos eram a flor da pele. Haviam até colmeias de abelhas no banco de reservas visitante no Allianz Parque. Mas nos vestiários, os corinthianos foram recebidos com diversas faixas, como se estivessem em casa. Houve até sobrevoo de um helicóptero com o símbolo alvinegro e os dizeres “jamais estará só”. A torcida palmeirense também fazia sua parte ao lotar o estádio e criar um grande clima de final.

Quando as escalações foram anunciadas, haviam poucas surpresas, mas de grande impacto: Jadson, desfalque recente por problemas musculares voltara ao time. Romero ocuparia o lado direito da ponta, deixando Mateus Vital no lugar de Clayson. Rodriguinho, ao lado de Jadson, comandaria o ataque de um jogo que seria imprevisível. Outra mudança importa foi a escalação de Ralf, que não era titular, mas que estava entre os 11 para dar maior proteção à defesa e imposição física do que Gabriel poderia.

O jogo começou cumprindo a promessa de uma grande decisão. Com menos de 2 minutos, Rodriguinho, após grande jogada de Vital, marcou o 1 a 0, tirando a vantagem conquistada pelos alviverdes na última semana. A tensão tomou ainda mais conta do estádio. Os anfitriões a cada minuto iam pressionando mais e criando boa chances.

Por outro lado, Rodriguinho e Vital levavam sempre perigo nos espaços deixados nos primeiros 15 minutos. O Palmeiras tinha mais a posse, tendo em torno de 70%, mais chutes ao gol, 18 contra 4, mas, curiosamente, isso não se refletiu em chances claras (empate em 1 a 1). Além disso, no gol, os palmeirenses acertaram somente 3. Números que mostram quanto o sistema defensivo do Corinthians esteve alto nível. E o sistema por completo, seja com a linha dos 4 defensores sempre compacta, com os dois volantes sempre próximos para proteger e os pontas que se doaram demais ao recompor as laterais. Foi uma aula corinthiana de como neutralizar o adversário.

Saídas de ataque eram bem orquestradas por Vital (com a bola), com as participações de Jadson e Rodriguinho. Maycon, com muita disposição, fazia transição entre defesa e ataque sempre

Obviamente, o pênalti marcado aos 26 minutos do segundo tempo e invalidado quase 10 minutos mais tarde, após muita confusão, foi um ponto importantíssimo na partida. Após o acontecido, os donos da casa, que já estavam muito nervosos, não conseguiram mais ter tranquilidade para chegar com tanto incisividade ao ataque. Enquanto o Corinthians, de tanto se defender, arrumou duas chances, uma em cruzamento fechado de Lucca e outra em bela arrancada de Sidley, que fez grande partida, chutando de perna direita e mandando muito próximo a trave.

Organização defensiva foi uma das chaves do jogo para o Corinthians: Linhas muito próximas, pontas fechando as laterais, volantes encaixotando o meio campo adversário

Não tinha jeito, o título seria decidido nos pênaltis. A estrela de Cássio mais uma vez brilhou, com defesas nas cobranças de Lucas Lima e Dudu. Maycon fechou a série a favor do time de Parque São Jorge e consagrou o título com uma das histórias mais bonitas nos mais de 100 anos de história do clube.

Como se não bastasse ser campeão em cima do maior rival, era o nosso primeiro título no novo estádio (lotadíssimo) do arquirrival. Enfrentamos um time favorito e com mais investimento, combatemos a euforia e o clima de já ganhou do outro lado. Foi a vitória do trabalho duro, da humildade e da fé. Nada mais Corinthians que isso!

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